Foi a emissora de televisão da minha infância. Com certeza acumulei muitas horas assistindo a Rede Manchete. Foi na tela dela que eu tive contato, pela primeira vez, com as séries de heróis e os desenhos japoneses.  Também foi assistindo diariamente o Jornal da Manchete – apresentado na época pela Márcia Peltier – que decidi ser jornalista.

Mais de uma década depois do fim da emissora, voltei aos bons tempos para escrever uma matéria e editar um vídeo contando a história da melhor emissora de televisão que o Brasil já teve. Tirei da prateleira o livro ‘Aconteceu Virou História’, de Elmo Francfort, e finalmente o li. Ouvi a inconfundível voz do Eloy Decarlo em uma entrevista por telefone. Também me diverti muito com as histórias que a minha colega de Tribuna Chris Beller – que foi repórter da TV Manchete de São Paulo – me contou.

Senti que este trabalho deveria ser uma justa homenagem à emissora que deixou tanta saudade. Abaixo, o texto publicado no portal Paraná Online no dia 5 de junho de 2013. No mesmo dia, uma versão reduzida, com foco nas novelas e no ‘Clube da Criança’, também foi publicada no jornal Tribuna. Ao final, também está o vídeo que eu editei. Duas semanas de pesquisa, mais de 10 horas de trabalho e 16 anos de história em 12 minutos.

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Há 30 anos a Rede Manchete de Televisão entrava no ar
publicado no Paraná Online – 05/06/2013

Uma década e meia de qualidade e inovação na televisão, mas a “TV do ano 2000” não conseguiu chegar lá. Acabou um ano antes. Há 30 anos a Rede Manchete entrava no ar. Em 16 anos, conheceu o céu e duas vezes o inferno.

Adolpho Bloch era o fã número 1 da Rede Manchete. Estava quase sempre assistindo o canal.
Adolpho Bloch era o fã número 1 da Rede Manchete. O criador estava quase sempre assistindo a criação.

Adolpho Bloch, criador da bem sucedida revista Manchete, aceitou um novo desafio no início dos anos 1980, a televisão. A marca sinônimo de qualidade da revista semanal, agora também seria vista na mídia eletrônica. Assim, em 5 de junho de 1983, a Rede Manchete entrava no ar. A palavra de ordem dentro da nova rede de televisão era a velha frase de Joãosinho Trinta: “o povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”.

A Rede Manchete não tinha medo de inovar. Foi a única a realmente ameaçar o reinado da Rede Globo nas novelas. Tornou-se exemplo de qualidade no telejornalismo. Modelo de cobertura do carnaval. E referência para uma geração de crianças que cresceu com as loiras e os desenhos e heróis japoneses.

Xuxa e Angélica. Descobertas pela Rede Manchete e lançadas ao estrelato.
Xuxa e Angélica. Descobertas pela Rede Manchete e lançadas ao estrelato.

Linha direta com as crianças

Foi na Manchete que o Brasil conheceu Xuxa Meneguel, no ‘Clube da Criança’. Anos depois, uma adolescente se tornou a segunda loira da tevê, Angélica. Durante a primeira década da emissora foi assim, a Rede Manchete criava e depois os outros canais copiavam. Mylla Christie, Patrícia Nogueira (a Pat Beijo), Duda Little e Deby também comandaram a programação infantil da emissora.

Foi a Rede Manchete que ensinou a Globo a transmitir o desfile das escolas de samba.
Foi a Rede Manchete que ensinou a Globo a transmitir o desfile das escolas de samba.

Esquentando os tamborins

Ninguém cobria o carnaval do Rio de Janeiro como a revista Manchete. Com a televisão, não foi diferente. Durante os dias da folia, a programação da emissora se voltava completamente para a maior festa popular do mundo. Foi a Rede Manchete que ensinou a Globo a transmitir o desfile das escolas de samba. Em 1984, a Manchete transmitiu sozinha o carnaval carioca e alcançou o primeiro lugar em audiência, com 70% dos televisores ligados sintonizados na emissora. Depois disso, a Rede Globo nunca mais deixou de transmitir o carnaval.

A ideia da novela 'Kananga do Japão' surgiu da mente do próprio dono da Manchete, Adolpho Bloch.
A ideia da novela ‘Kananga do Japão’ surgiu da mente do próprio dono da Manchete, Adolpho Bloch.

Novelas

Maitê Proença foi lançada ao estrelato em 1986 na novela ‘Dona Beija’. O primeiro sucesso da dramaturgia da Manchete e a primeira novela da televisão brasileira a exibir cenas de nudez. Em 1989, Raul Gazolla se tornou o novo galã do Brasil ao lado de Christiane Torloni em ‘Kananga do Japão’. A ideia da novela surgiu da mente do próprio dono da Manchete, Adolpho Bloch. Para as gravações, a emissora investiu na maior cidade cenográfica já construída até aquela data.

Sucesso nacional, 'Pantanal' venceu a Rede Globo em audiência com a história de Juma.
Sucesso nacional, ‘Pantanal’ venceu a Rede Globo em audiência com a história de Juma.

O cometa Manchete

Foi em 1990 que a Rede Manchete viveu seu auge. E tudo se deve à Rede Globo, que não quis fazer a trama ‘Amor Pantaneiro’, de Benedito Ruy Barbosa. A líder absoluta na teledramaturgia avaliou que seria muito difícil gravar no Pantanal. Mas onde a Globo via dificuldade, a Manchete viu oportunidade. As deslumbrantes imagens de uma região do Brasil pouco vista na tevê, aliada ao magistral texto de Benedito fez com que a novela ‘Pantanal’ batesse a Globo. No último capítulo, em 10 de dezembro de 1990, a teledramaturgia da Manchete entrou para a história ao marcar 41 pontos de audiência contra 21 da Globo.

Almir Sater e Ingra Liberato foram as estrelas principais de 'A História de Ana Raio e Zé Trovão'.
Almir Sater e Ingra Liberato foram as estrelas principais de ‘A História de Ana Raio e Zé Trovão’.

Mas a Rede Manchete foi com muita sede ao pote e seu maior sucesso foi o começo do caminho para sua maior crise. Para suceder ‘Pantanal’, a emissora colocou na estrada a primeira novela itinerante do Brasil. ‘A História de Ana Raio e Zé Trovão’ rodou o centro-sul do País, contou com mais de cem atores e levou para a televisão, pela primeira vez, os rodeios e as músicas sertanejas. Não obteve o enorme sucesso de ‘Pantanal’, mas ainda incomodava a concorrência.

Então a Manchete decidiu dar mais um salto, a novela ‘Amazônia’. Gravada na selva amazônica, com a trama se passando ao mesmo tempo no passado e no futuro. Uma superprodução que fracassou e ajudou a afundar a emissora de vez, que chegou a ser vendida. O que o telespectador não viu entre 1992 e 1993, foram as greves dos funcionários por falta de salário, a programação minguando e Adolpho Bloch lutando na Justiça para retomar a emissora, que um ano após a venda voltou a ser Bloch.

Taís Araújo, em 'Xica da Silva', foi a primeira protagonista negra da teledramaturgia brasileira.
Taís Araújo, com apenas 17 anos, em ‘Xica da Silva’, foi a primeira protagonista negra da teledramaturgia brasileira.

A pioneira

Na dramaturgia da Manchete, não existia fórmula certa. Cada novela precisava ter um componente muito importante, o “inovador”. Desta forma, a Manchete foi pioneira de muitas maneiras: ‘Dona Beija’ foi a primeira a apresentar cenas de nudez, ‘Corpo Santo’ a discutir o preconceito contra a Aids e ‘Pantanal’ a ser quase gravada fora do estúdio. ‘A História de Ana Raio e Zé Trovão’ foi a primeira novela itinerante, ‘Guerra Sem Fim’ a primeira a se passar em uma favela e ter beijo e casamento gay e ‘Xica da Silva’ entrou para a história com a primeira protagonista negra da tevê.

Eliakim Araújo, Leila Cordeiro (esquerda) e Márcia Peltier (direita) foram os rostos mais conhecidos no comando do 'Jornal da Manchete'.
Eliakim Araújo, Leila Cordeiro (esquerda) e Márcia Peltier (direita) foram os rostos mais conhecidos no comando do ‘Jornal da Manchete’.

Jornalismo: um capítulo à parte

No segundo dia no ar, a Rede Manchete já fazia história no telejornalismo. O ‘Jornal da Manchete’ estreava com cerca de duas horas de duração. As emissoras concorrentes apresentavam apenas 30 minutos de notícias no horário nobre. A notícia estava no DNA da Manchete. Assim como Adolpho Bloch fez da revista Manchete a maior e melhor do Brasil, ele também queria que o telejornal de sua emissora fosse o maior e melhor do País.

Propaganda do jornalismo da Rede Manchete na revista Manchete.
Propaganda do jornalismo da Rede Manchete na revista Manchete.

Ao longo de uma década, grandes nomes do telejornalismo brasileiro como Carlos Bianchini, Ronaldo Rosas, Carlos Chagas, Florestan Fernandes Júnior, Leda Nagle, Eliakim Araújo, Leila Cordeiro, Sérgio Rondino e Leilane Neubarth disseram a frase: “o Brasil e o mundo em sua casa, pelo Jornal da Manchete”. Após a crise de 1992, o telejornal passou a ser apresentado por Márcia Peltier, que durante sete anos imprimiu um estilo sóbrio e carismático ao ‘Jornal da Manchete’.

A Rede Manchete também mostrou o Brasil que o brasileiro não via na tevê em programas como ‘Documento Especial’, ‘24 Horas’, ‘Câmera Manchete’ e ‘Na Rota do Crime’. Temas como homossexualidade, travestis, naturismo e crack foram tratados com seriedade pela primeira vez.

Último "M" da Manchete visto na tela.
Último “M” da Manchete visto na tela.

O fim

Após todos os tropeços, a Rede Manchete sempre deu a volta por cima. Perdia audiência, perdia grandes profissionais, perdia emissoras afiliadas… mas voltava, reconquistava audiência e descobria novos grandes profissionais. Porém, a crise econômica que tomou conta do mundo em 1998, tornou a dívida da Rede Manchete quase impagável. Apostas erradas na teledramaturgia e nos programas de auditório ajudaram a afundar a emissora.

Funcionários voltaram a viver o drama de não receber os salários. Em vida, Adolpho Bloch não foi um exemplo de empresário/administrador, mas após sua morte a situação ficou ainda pior. Em 1999, a Rede Manchete foi vendida. No dia 17 de maio daquele ano, o “M” foi visto pela última vez na televisão. Sem nenhuma despedida oficial, a história de sucesso da Manchete chegava ao fim. Em 1º de agosto de 2000, o Grupo Bloch decretou falência e também chegou ao fim a revista Manchete.

Eloy Decarlo foi a voz da Rede Manchete do primeiro ao último dia da emissora.
Eloy Decarlo foi a voz da Rede Manchete do primeiro ao último dia da emissora.

A voz

Ao longo dos dezesseis anos de vida da Rede Manchete, Eloy Decarlo esteve presente diariamente na casa de milhares de brasileiros. Conhecido radialista no Rio de Janeiro, ao fazer um teste de locução para as vinhetas da nova emissora de televisão, que entraria no ar em três meses, ouviu do diretor que tinha encontrado a voz da Manchete.

“Foi um lugar muito bom de trabalhar. A Manchete tinha um ambiente familiar, as pessoas eram amigas. A gente queria chegar antes no trabalho para encontrar os colegas fantásticos que tínhamos lá”, relata Eloy. O locutor diz que os momentos bons superam os períodos difíceis da emissora.

Em outubro de 1998, sem querer, Eloy também entrou para a história da teledramaturgia brasileira. A última novela da Manchete, ‘Brida’, era um desastre de audiência. Nada que a direção da emissora tentou fez com que o público tomasse gosto pela história. “Cheguei para trabalhar e fui chamado. Me disseram que eu seria o desfecho de Brida, que a novela acabaria no mesmo dia”, relata. Ao final do capítulo, a locução de Eloy contava o que aconteceu com cada um dos personagens e a novela chegava ao fim. Talvez tenha sido a primeira novela com um locutor narrando o desfecho da história.

Eloy conta que sua voz ainda é reconhecida e que muitas pessoas se emocionam ao saber que ele foi a voz da Rede Manchete. Quatorze anos após o fim, Eloy diz que a emissora faz falta. “A Manchete deixou uma reflexão. A TV Globo é muito bem feita, mas há espaço para investimento que dê resultado. Basta as pessoas certas e o capital adequado. O monopólio [da TV Globo] existe e ainda vai existir até que alguém queria investir com seriedade”, destaca o locutor.

"M" que durante 16 anos esteve no terraço da sede da Manchete no Rio de Janeiro "enfeita" um ferro-velho.
“M” que durante 16 anos esteve no terraço da sede da Manchete no Rio de Janeiro “enfeita” um ferro-velho.

O que restou

Em 2005, todo o arquivo da Rede Manchete foi leiloado. Mais de 5 mil fitas, com 220 mil horas de gravação, puderam deixar a sede da emissora, lacrada pela Justiça no Rio de Janeiro. Algumas semanas depois, todas as fitas foram doadas à TV Cultura de São Paulo. Ao longo de quatro anos, o material foi recuperado. Mas 10% estava em um estado tão deplorável, que não foi possível salvar uma única imagem.

Desde 2010, a TV Cultura tem um projeto para digitalizar as fitas. Mas para isso, precisa de R$ 8 milhões. O maior entreve são os direitos autorais. “Estamos de mãos atadas. Não sabemos para quem deve ir o direito autoral pelo uso das imagens. Para a família Bloch? Os ex-funcionários? A massa falida?”, disse o gerente de documentação da Cultura ao jornal O Globo em janeiro deste ano.

Sem esta decisão, o projeto continua parado e os 16 anos de história da Rede Manchete estão guardados à espera do dia em que os brasileiros possam redescobrir a emissora de televisão que tinha como slogan: “qualidade em primeiro lugar”.

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