Amarelo. Odiosa cor amarela. Amarelo quimérico. Áureo alucinante. Espectro lascivo. Cor etérea e fugaz. Amarelo efêmero, devaneador, divagador. Cor horas evasiva, horas invasiva. Maracujálico opressivo. Jugo asfixiante. Odeio o amarelo.

Tenho que mudar de canal. Não sei o que é, mas algo me compele a isso. Não tem controle remoto. Que televisor mais antigo! Botões. Ressuscitaram os botões. Que toque é esse? Telefone preto? Há décadas não via um desses, com fone enorme e disco. Parece que o tempo regrediu. Não para mim, mas para as coisas. Os objetos voltaram no tempo. Alô? Alô! Ninguém do outro lado. A televisão, tenho que mudar de canal. Nossa! Um relógio de parede com números romanos. Hoje é uma ousadia ler números romanos. Em pouco tempo será uma ousadia conseguir identificar as horas em um relógio com ponteiros. Pronto! Mudei de canal. Que droga, só chuviscos. Quem sabe no próximo canal… Tudo amarelo! Maldito amarelo. Está me cegando, tentando me invadir. Não consigo mais enxergar a televisão para desligá-la. Amarelo quimérico. Áureo alucinante.

Que lugar familiar. Um déjà vu contínuo repetitivo, peremptório. A minha escola. Sim. É onde estudei quando criança. Os bancos no pátio, a cancha de cimento com grades ao redor, o gramado com árvores e as cerquinhas de madeira. Cerquinhas amarelas? Não eram brancas? Eu estudava no segundo andar, mas escadas não eram amarelas, eram pintadas de cinza. Que saudades! Minha sala era a do fundo. Estranho, as paredes não eram amarelas. Muito menos o quadro-negro. Giz amarelo? Como se escreve com giz amarelo em um quadro-amarelo. O maldito amarelo está tomando conta de tudo. Não! Espectro lascivo. Cor etérea e fugaz. O amarelo está me perseguindo, quer me dominar.

Droga, acho que me esqueci de entregar o relatório. O escritório parece mais opressivo que de costume. Estão usando gravatas? Será que alguma coisa mudou? Desculpe senhor, eu não sabia que tínhamos que usar gravata agora. Providenciarei uma. Tenho que apressar o relatório. Todos estão usando gravatas amarelas. Será que é algum tipo de regra. Todos estão me encarando porque não estou de gravata amarela. Nunca tinha reparado que os móveis são amarelos. É isso! Quer me oprimir novamente. Preciso sair daqui. Que se dane o relatório. O amarelo está dominando tudo. Não há saída! Maracujálico opressivo. Jugo asfixiante. O amarelo me caça. Quer me invadir, dominar, transformar.

Que horas são? Meu celular não está na cabeceira? Aqui está. Luz forte. Esta tela é capaz de cegar alguém. Quatro e dez. Ainda tenho tempo para dormir. Acho que terei que mudar essa cortina. Porcaria de luz amarela piscando. Desde que esse sinaleiro passou a ficar em alerta durante a madrugada que eu não tenho uma noite tranquila de sono. É esse amarelo intermitente que está me dando pesadelos. Isso não acontecia com o vermelho e o verde. Bom, eles não ficavam piscando na minha cara. Não adianta pensar nisso agora! Melhor voltar a dormir.

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