Eu nunca fui de acreditar nessas bobagens, mas pensei que, em um momento como o que estou passando, qualquer palavra poderia me ajudar a encontrar uma ideia de como prosseguir. Dei uma risada desconfiada soltando o ar pelo nariz. Estou parado em frente à porta e antes de entrar fiquei ansioso? Que coisa sem sentido. Se não acredito nisso, não tem nem porque criar qualquer tipo de expectativa. Dou o primeiro passo, coloco a mão direita na maçaneta, giro-a, abro a porta e entro.

Com licença.

O local é um tanto mal iluminado. No meu lado direito há um sofá de canto de camurça vermelha. Tem cara de que está há décadas naquele canto. O chão parece algo da década de 1970 ou 1980. Pequenos tacos de madeira em tons mais claros e escuros. Sem nenhuma uniformidade.

Com licença. Tem alguém aí?

Concluo que não gostei do ambiente. Eu não deveria ter entrado aqui, que bobagem. Ao me virar para abrir a porta e sair, escuto um som de tecido sendo roçado e dois passos.

Desculpa demora. Entra.

A voz era de uma senhora mais velha. Fumante, com certeza. Aquela rouquidão grave da voz das fumantes com mais de 40 anos é inconfundível. Dei duas fungadas leves e não senti nenhum cheiro de cigarro no ar. Ainda bem. Se tivesse sentido teria saído imediatamente. Não suporto pessoas que fedem a cigarro. Ao me virar e encarar a senhora, vi uma figura um tanto pitoresca. Um lenço roxo na cabeça, um lenço amarelo no pescoço, um vestido branco com babados, que mais parecia um vestidinho de botijão de gás, e sapatilhas vermelhas ao estilo papal. O rosto estava maquiado com cores fortes e nos lábios um batom vermelho espalhado como o da velha surda. A senhora parecia uma mistura de cigana, com mãe de santo e Carmem Miranda.

Desculpe. Eu já estava de saída.

Antes que eu pudesse me virar novamente para sair ela disse:

Não qué tirá a prova?

Que prova?

Vem. Você deve de ser descrente. Entra e pergunta que quiser. Daquilo que eu falá, você é livre pra tirá as pópria conclusão.

Na verdade eu já tinha decidido que ia embora. Mas as palavras daquela senhora mexeram com o meu orgulho e os erros de português mais ainda. Decidi ficar e a segui através da cortina roxa que levava ao próximo ambiente, mais mal iluminado que o primeiro. Na saleta, ela sentou em uma cadeira em uma mesa redonda e eu sentei na cadeira na frente dela. Não falei nada e a senhora ficou me olhando.

Pergunta. É pra isso que cê veio.

Novamente, como antes de entrar, fiquei um tanto ansioso. Mas decidi falar.

Eu estou em um momento da minha vida que me deixou um pouco sem rumo.

Sim. Senão não tinha entrado aqui.

Como eu odeio que me interrompam quando eu estou falando. A senhora me interrompeu e ainda deu um leve sorriso. Parecia que estava zombando de mim.

Então, como eu dizia, estou passando por um momento…

Não precisa rezá rosário. Pergunta.

Essa senhora está me enchendo a paciência. Não devia mesmo ter entrado aqui.

Pergunta. Mas cê já sabe que vai ficá irritado, não é?

Como assim vou ficar irritado?

Respondi tentando disfarçar a minha impaciência.

Já tá irritado.

A senhora não me deixa falar.

Mas não precisa falá. É pra perguntá.

Se houvesse uma bola de cristal em cima da mesa eu juro que tinha quebrado na cabeça dela. O leve sorriso da senhora no canto da boca também estava me tirando do sério. Não aguentei e tive que retrucar.

A senhora está rindo de mim?

Não. Porque cê tá infeliz qué que as outras pessoa perto de você também fique com cara de infeliz?

Mas que velha insolente. Acho que realmente está debochando da minha cara. Tive que me segurar na cadeira para não levantar e ir embora, mas decidi ficar para provar que essa velha é uma fraude.

A senhora está tentando me irritar?

Não. Cê já chegô aqui irritado. Só não tinha botado pra fora. Não é melhor quando bota pra fora?

Dei um longo suspiro e decidi que continuar naquela toada não ia levar a lugar nenhum. Então mudei o rumo da conversa.

O que devo fazer da minha vida daqui para frente?

O que cê qué fazê?

Mas a senhora não disse que era para eu perguntar? Pois estou perguntado. E a senhora me responde com outra pergunta?

Na vida temos mais pergunta que resposta. Por que cê acha que não sabe o que fazê da vida?

A velha é maluca, só pode ser isso. Entrei em um sanatório e não percebi. Comecei a ficar cada vez mais impaciente com as coisas sem nexo que ela dizia.

Eu entrei aqui para perguntar isso. A senhora manda que eu faça uma pergunta. Eu pergunto e então a senhora quer que eu tire a conclusão. Não é a senhora que deveria me dizer?

Sabe filho, a raiva às vezes não deixa a gente vê as coisa direito.

Eu não estou com raiva. É a senhora que está me deixando assim.

A tua cara desde que cê chegô não convence ninguém disso. A raiva cega e impede de vê os caminho. Quando sai a raiva, vê o caminho.

Eu estava prestes a retrucar, mas de alguma forma parece que o dito pela senhora fez algum sentido para mim. Fiquei sem saber o que dizer. Acho que ela conseguiu me desarmar. Será que era essa a intenção dela?

Joga o orgulho fora. Não precisa fazê pose de gente que güenta tudo.

Fiquei olhando para a senhora e não consegui mais pensar em nada. Todo aquele ímpeto irrequieto que tomava conta do meu corpo passou e parece que começou a subir para a minha garganta. Senti um nó como nunca tinha sentido na vida.

Solta o rio. Ele vai levá a água embora. Sem a raiva cê vai vê o caminho.

Tentei responder, mas não respondi. O nó na garganta não me deixou. De repente a senhora levantou.

Vô buscá uma água pra você. Volto daqui a pouco.

Assim que ela saiu da saleta, desabei a chorar como uma criança. Parecia mesmo um rio. Nunca me desaguei em tanto pranto, molhando a minha camisa e soluçando compulsivamente. Passei alguns minutos assim. Até que eu me acalmasse, a senhora não retornou. Tenho certeza que ficou esperando eu me recompor.

O ambiente que tinha achado tão escuro agora perecia mais claro. Tudo estava tão quieto, tão silencioso. Senti-me muito bem assim. A senhora voltou com o copo de água, que tomei em uma golada só.

Agora cê não precisa mais perguntá. Se as coisa vão melhorá eu não sei. Mas que você vai consegui vê algum caminho, cê vai.

Coloquei a mão no bolso, puxei a carteira e perguntei quanto eu devia. A senhora me disse que eu deixasse o quanto achava que tinha valido. Ao passar pela porta e colocar os pés na rua, senti como se o ar estivesse renovado. Parecia que tinha descarregado uns pesos dos meus ombros. A minha vida continuava ruim, mas agora não parecia mais que eu não tinha nenhum caminho a seguir. Lá longe eu já começava a vislumbrar alguma coisa.

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