Não há nada que me faça sentir mais em paz que olhar pela janela. O longo gramado verde parece um tapete aconchegante que convida a um confortável passeio com os pés descalços. A pele da sola do pé a tocar a grama é como uma injeção revigorante da mãe-natureza. Pequenos arbustos que povoam o jardim parecem algodões doces. Minha vontade é me jogar neles como se fossem nuvens e rolar pelo chão como se aquelas espessas e fofas nuvens mais alvas que o mais branco estivessem a me abraçar. Há algumas árvores, em quantidade menor que os arbustos. Todas fortes, robustas, com grandes galhos, que mostram toda sua força ao se estender e se esticar como se fossem garotos nas pontas dos pés tentando alcançar a fruta mais deliciosa do pomar. Nessas árvores os passarinhos cantam como se a felicidade suprema estivesse reinando dentro deles. O gorjeio das aves é como uma serenata de gratidão à vida revigorada que o jardim lhes dá.

Um pequeno esquilo corre pelo gramado e sobe pelo tronco frondoso de uma das árvores. É impressionante como o pequeno animal desenvolve a mesma velocidade no solo quanto no tronco. Até parece que ele se esquece de que não está mais na horizontal e sim na vertical. A brisa sopra leve e com certa constância, como se fosse a mão suave de uma amada mãe fazendo cafuné no seu filho. A brisa traz um sopro refrescante para a pele e um calor revigorante para o coração. Como é bom olhar pela janela em um dia de sol. Faz-me acreditar que está tudo bem.

Mas a mesma janela também me inspira terror ao olhar através dela. Nas noites de frio e chuva, o gramado parece uma longa chapada de cascalho, com seus pedregulhos disformes e pontiagudos prontos a cortar a pele dos pés descalços. Os pequenos arbustos são como covis para animais selvagens na espreita. Eles tornam o jardim um verdadeiro campo minado, no qual, se cada passo não for calculado, a tragédia resultante pode ser incomensurável.

As árvores se erguem ameaçadoras, com seus galhos retorcidos, que na luz dos relâmpagos formam uma estranha geometria que cresce pelo gramado e busca lhe alcançar para enrolar-se em seu corpo e te estrangular como uma jiboia faz com sua presa. Nessas árvores os passarinhos se foram, há muito voaram como se fugissem de um mau agouro. O vento uiva um som de morte que gela a espinha de baixo para cima e ainda faz os pelos do corpo arrepiar. O soprar é frio e penetra na pele como se o corpo estivesse sendo bombardeado por alfinetes. Como não é bom olhar pela janela em uma noite de chuva. Faz-me acreditar que tudo está ainda pior.

Será que a noite de chuva é a nêmesis do dia ensolarado? O pior inimigo de um homem é sua própria mente? Para aqueles que se sentem culpados, esquecer pode ser um dom. Mas se esquecer das glórias de que se orgulhara é como tirar o recheio do bombom. Que graça tem um bombom sem recheio.

Na escrivaninha, entre volumes antigos de livros com lombadas roliças de couro velho, vermelho, azul ou verde, carcomidas pelo tempo, pego um compacto simples de sete polegadas, tão ou mais antigo que os livros. A parte da capa que não fica protegida pelos livros apresenta algumas manchas amareladas. Sei que não é a primeira vez que olho para a capa deste compacto, mas tenho certeza que já fiquei intrigado com ela antes. Não consigo identificar, ou compreender, a figura no centro. Ao redor há círculos e mais círculos com cores psicodélicas que se movem em riscas para a esquerda e para a direita, para a esquerda e para a direita. Não é bom ficar olhando muito tempo para esta capa, a impressão é que ela pode enlouquecer uma pessoa em pouco tempo. Será que já fiquei olhando muito tempo para ela? Acho que é possível classificá-la como algo pós-modernista, o que não faz nenhum sentido com a música que está dentro.

Ao retirar o disco, o cheiro de coisa guardada toma conta das minhas narinas. Será que faz tanto tempo assim que não ouço este disco? Ou o cheiro da velhice já está tão impregnado no material que mesmo manipulado diariamente irá resistir ao novo e se reafirmar no velho. Esses discos de sete polegadas têm um buraco gigantesco no meio. Dá para ouvi-los em um pau-de-macarrão. O selo do disco é de um azul que parece querer desbotar, mas ainda não conseguiu. Na parte de cima está escrito RCA Victor. Que engraçado! O desenho do cachorrinho na frente do gramofone me transportou para um passado tão longínquo. A sensação é de um prazer e de uma alegria que há muito se perdeu, um prazer e uma alegria que a mente não sabe como traduzir… uma simulação destes sentimentos, já que os originais deixaram de existir. De repente, outro sentimento me toma. Uma ansiedade. Moonlight Serenade. Parece que quero rápido ouvir a música. Com certeza já a ouvi muitas e muitas vezes, mas será como a primeira vez. A ansiedade se mistura à apreensão, imaginando que sensações este som pode me trazer.

A radiola Philips não sintoniza nenhuma estação de rádio, mas algo me diz que ainda pode reproduzir um bom disco. Coloco o botão de ligar para cima e a luz do painel se acende. Um som seco, como um estampido, sai dos alto-falantes evidenciando que estão funcionando. Ergo a tampa de madeira que fica no lado esquerdo da radiola. O prato tem um detalhe em branco no centro e outro perto da borda. No final, os detalhes são irrelevantes e me apresso a colocar o compacto em seu lugar e posiciono a agulha para que ela repouse de forma perfeita dois segundos antes do início da música. O chiado inicial da antiga gravação imediatamente me catapulta ao passado. Um passado incerto, mas sinto que não estou mais no presente. Moonlight Serenade começa. A música tem um ritmo que em alguns momentos chega a me dar medo. Um medo de algo que já foi há muito tempo, mas que muito prejudicou. Não faço ideia do que seja. Aproximo-me da janela, marco meus passos até lá com o compasso da música. À medida que o som vai se desenvolvendo o medo começa a se dissipar.

Lá fora o dia é de sol entre nuvens. O gramado está belo como sempre. Lá muito ao fundo vejo a cidade, seus diversos prédios, alguns banhados pela luz do sol e outros não. Uma grande muralha de pedra e algo que se movimenta entre eles. Parece que a música ficou mais encorpada ou é impressão minha? O que é aquilo? Forço um pouco a vista, que na minha idade já não é lá essas coisas. Caminha entre os prédios. É do tamanho deles. Meu cérebro ainda não conseguiu processar o que meus olhos estão vendo. É como se o cérebro estivesse recebendo uma informação truncada que está processando pela primeira vez. Na radiola o disco continua girando. Certifico-me que meus ouvidos estão escutando a música. Estão. Olho novamente pela janela. Ele se movimenta por entre os prédios da cidade. É do mesmo tamanho deles ou até maior que alguns.

Alguma coisa lá fora te incomoda?

Não sei ao certo. Não sei se posso confiar nos meus olhos.

Não entendi.

Você já viu uma coisa que acha que não está vendo. Ou melhor, que não faz nenhum sentido que você veja?

Se você está vendo deve haver algum sentido.

Não soube o que responder. Na verdade, não quis dizer mais nada. Uma espécie de monstro gigante caminhando por entre os prédios. Isso é loucura! Se não for, deve estar destruindo tudo, pois como uma coisa daquela conseguiria se movimentar pelas ruas apertadas do Centro? Mataria centenas ou até milhares, mesmo que involuntariamente. O chiado após o fim da música atrai a minha atenção. Olho para a radiola. O lado A do compacto chegou ao fim. Olho pela janela e o monstro não está mais lá.

Esta música mexeu tanto assim com você?

Coloca ela de novo para mim?

No primeiro segundo em que Moonlight Serenade toca novamente, a sensação de medo retorna. Ao olhar pela janela lá está ele. Diabos, novamente andando entre os prédios. Será que eu estou perdendo a sanidade? Eu posso já ser louco há muito tempo e não lembro. A música da radiola, o monstro, minha mente cruza os dados, tenta encontrar respostas. Quanto mais eu penso, mais me agonia não compreender o que está acontecendo. Os sentimentos que essa música me traz… também não consigo traduzir isso. Será que devo entrar em desespero e gritar que há um monstro gigante atacando a cidade? Se sou louco, não tenho coragem de me passar por ainda mais louco. Novamente a música fica mais encorpada. Em alguns instantes ela vai acabar.

O avião do Glenn Miller nunca foi encontrado, não é?

A frase me pegou de surpresa. Meu cérebro ainda estava trabalhando em cima do monstro gigante. É como se eu tivesse que mudar uma chave para conseguir entendê-lo.

Como é?

O Glenn Miller, dessa música, desapareceu na época da Segunda Guerra com toda a banda. É estranho, não? Nunca ser encontrado. A impressão que dá é que nunca realmente se foi.

A música termina mais uma vez. O que ele disse me distraiu. Rapidamente olho para fora e o monstro gigante não está mais lá. Será que eu pergunto se alguma vez algo gigante já apareceu na cidade? Se aparecer de novo eu pergunto. Fico olhando pela janela e me atenho no longo gramado verde que parece um tapete aconchegante que convida a um confortável passeio com os pés descalços. Mas a janela também me inspira terror. Principalmente as árvores que se erguem ameaçadoras, com seus galhos retorcidos, na luz dos relâmpagos nas noites de chuva. Será que a noite de chuva é a nêmesis do dia ensolarado? O pior inimigo de um homem é sua própria mente?

Olho para a escrivaninha e percebo um antigo disco, um compacto simples de 7 polegadas, tão ou mais velho que os livros. Sinto-me compelido a pegá-lo. A capa hipnótica desperta estranhas sensações que tenho certeza que já tive antes. Algo distante na minha mente revela que ao colocar o disco na radiola algo de nostálgico tomará conta do meu ser. Será que já senti isso antes? Porém, ao mesmo tempo, o medo de sentir medo também começa a brotar. Para tentar distrair meus próprios sentimentos digo:

Se não me engano o GlennMiller desapareceu na época da guerra, não?

Você vai ouvir Moonlight Serenade?

Ao ouvir a pergunta, olho para a radiola, olho para o disco, olho para a capa hipnótica, olho para a janela, olho para o jardim, olho para os arbustos, olho para as árvores, olho para a cidade ao fundo… Desisto.

Acho que vou deixar para ouvir amanhã.

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