Desde criança, tenho um gosto especial pela a ficção científica. Acredito que seja o único gênero que pode tratar de qualquer outro gênero sem deixar de ser ele mesmo. Depois de 2001, resolvi colocar alguns textos na Internet e acabei conhecendo outros escritores amadores como eu.  Em 2004, fui convidado para fazer parte do REFICEF (Recanto dos Escritores de Ficção Científica e Fantasia). Durou pouco (infelizmente por falta de tempo de todos os envolvidos), mas foi excelente para aprender mais com companheiros de “pena”.

Um dos projetos era o de mini-contos. Toda quinzena alguém ditava um tema. Todos escreviam um mini-conto e enviavam para todos, que liam os textos de todo mundo, faziam críticas e apontavam qual era o melhor. A partir de hoje, vou postar alguns desses textos aqui. Eis o primeiro:

A Carta
por Adriano Naressi

Endereçado ao lado de fora e a quem possa interessar. A data e o mês eu não sei bem, o ano eu acredito que ainda seja 2033.

Nos últimos meses, ou tempos, estive vivendo neste lugar. O verdadeiro nome deste lugar eu não sei. Reúno as minhas últimas forças para escrever essas palavras, espero que elas possam alcançar alguma pessoa sensata. Em minhas longas viagens procurando civilizações perdidas, nunca pensei que poderia encontrar o mais inacreditável dos lugares. Campos infinitos, lagos maravilhosos que refletem a luz do sol. Também há árvores, altas, baixas, novas e velhas. Árvores de todos os esplendores e cada uma com sua beleza própria. Aqui não há nada que tenha sido criado pelas mãos do homem. Porém, desde que cheguei espero coisas que nunca chegaram. O sol, sempre a pino, nunca foi encoberto por uma nuvem sequer. Nunca choveu, fez frio, não há vento, nem brisa. A noite nunca vem, sempre é meio dia. Não há passarinhos, animais, não há barulho. O silêncio deste lugar é tão terrível, que o som da minha voz parece rasgar os meus ouvidos. As árvores têm frutas, várias e de variedades incontáveis, mas todas sem gosto. Pelo menos eu não sinto gosto algum nelas. A água dos lagos está sempre parada, aqui nada se move, a menos que eu a toque. Um dia entrei no lago, depois disso não me sequei, por mais que ficasse no sol, eu continuava molhado. Algumas vezes eu ainda durmo, mas não há sonhos, pois aqui não há nada para ser sonhado.

Como cheguei aqui? Eu não sei. Apenas sei que agora estou aqui. Escrevo esta carta para advertir todos aqueles que buscam este lugar. Digo que desistam, voltem para suas casas, voltem para suas famílias e vivam suas vidas. Esqueçam que um dia ouviram falar neste lugar. Quem sabe no dia em que vocês esquecerem da existência deste lugar ele desapareça e eu possa descansar em paz. Agora, ao ler esta carta, o senhor ou a senhora deve estar se perguntando onde arranjei papel e caneta, e como esta carta chegou ao outro lado. Pois eu não arranjei papel e caneta, encontrei esta carta em baixo de uma árvore, mas juro que não fui eu que escrevi. Mas se a carta não chegou do outro lado, como eu soube que eu a encontraria e a leria? Vou me concentrar em tentar esquecer este lugar e esperar que ele desapareça, por mais que um sussurro retumbante em minha mente não me deixe esquecer: “Shangri-lá, shangri-lá…”.

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